Mais-valia
Mais-valia
A mais-valia corresponde a um conceito económico, criado
por Karl
Marx, na sua crítica ao
capitalismo, que se caracteriza como o valor excedente que o capitalista retira
do trabalho produzido pelo trabalhador. Mais concretamente, a mais-valia surge
pela diferença entre o valor que o trabalhador produz durante a sua jornada de
trabalho e a parcela deste valor que o trabalhador recebe. Vejamos a seguinte
exemplificação: Um trabalhador A trabalha durante 8 horas diárias, produzindo
40 chinelos em troca de uma remuneração em torno de 200 EUR. Cada chinelo vale
20 EUR, contabilizando um total de 800 EUR produzidos, por dia, pelo
trabalhador. Em 2 horas de trabalho, o trabalhador produziu 10 chinelos no
valor de 200 EUR. Logo, tudo o resto produzido, i.e., os 30 chinelos no valor de 600€, representam a mais-valia.
Esta diferença representa o lucro que o capitalista retira da produção do
trabalhador, o que, para Marx,
considera ser uma forma de exploração do trabalhador, pois este vê-se alienado
do fruto do seu trabalho, tentando demonstrar que a acumulação capitalista
apenas seria possível através desta exploração. Como este lucro seria a base
para o acúmulo de capital, o autor considerava que os capitalistas iriam
procurar o aumento desta mais-valia. Portanto, Marx divide a mais-valia em duas categorias:
1) mais-valia absoluta e 2) mais-valia relativa:
1) Mais-valia
absoluta:
A
mais-valia absoluta corresponde ao valor resultante do aumento das horas totais
de trabalho do trabalhador, sem que este seja remunerado proporcionalmente ao
produzido. Por exemplo, se um trabalhador, que aufira 200 EUR diários para
fazer chinelos, e precise apenas de 2 horas para os reproduzir, no que
produzir, tiver 2 horas acrescentadas ao seu horário de trabalho sem que o
valor do salário aumente, irá produzir 200 EUR para o capitalista sem ser
remunerado por tal.
2) Mais-valia
relativa:
A mais-valia
relativa corresponde ao valor resultante da melhoria de produtividade que o
trabalhador obtém através de inovações tecnológicas que permitam baixar o
número de trabalho necessárias para a produção do valor correspondente ao
salário, fazendo com que o resto do valor produzido reverta exclusivamente para
o patrono. Vejamos uma exemplificação casuística. Um trabalhador que tenha um
salário de 200 EUR, e que produza este montante, em chinelos, durante 2 horas,
ao acrescentar ao seu trabalho uma máquina que lhe permita fazer o mesmo
trabalho, ao dobro da velocidade, em apenas 1 hora o produto do seu trabalho
cobriria o seu salário e o produzido durante a seguinte hora, transformando-se
em lucro para o capitalista.
A
mais-valia absoluta teve maior importância, sobretudo, no início do sistema
capitalista, pois durante o começo da Revolução Industrial os capitalistas
aumentaram recorrentemente as jornadas de trabalho dos seus operários,
apropriando-se do valor do seu trabalho, em busca de maior acúmulo de capital.
No entanto, com alterações forçadas por fortes resistências de trabalhadores,
que obrigaram à criação de sindicatos e leis trabalhistas que diminuíram as
jornadas de trabalho, os capitalistas viram-se forçados a encontrar formas de
aumentar a mais-valia relativa através de diversas inovações tecnológicas.
Assim a mais-valia relativa, que já detinha o seu relevo durante a Revolução
Industrial, devido ao surgimento de novas máquinas, especialização dos trabalhadores
e novas técnicas de produção, que permitiram maior exploração da força de
trabalho, teve um impulso considerável, tornando-se, assim, a principal forma
de exploração capitalista durante os últimos séculos.
Importante
também, no contexto atual do capitalismo globalizado, são as formas de
acumulação de capital no mundo digital. Na obra Platform Capitalism, Nick Srnicek identifica 5 destas novas formas
de acumulação de capital através de um novo processo de exploração da força de
trabalho, que são as plataformas digitais. Debrucemo-nos então sobre estas:
1)Advertising Platforms- São plataformas digitais, cujo modelo de
negócio consiste na recolha de dados dos seus utilizadores para vender através
de publicidade direcionada. Assim os utilizadores destas plataformas geram
dados de forma contínua, que são utilizados para criar algoritmos de
publicidade, que criam novo valor económico que vai ser apropriado pela própria
plataforma. Assim os utilizadores trabalham, mesmo que indiretamente, para a
plataforma, sem nenhuma remuneração para tal, o que faz com que o valor
retirado seja todo apropriado pela plataforma, ou seja todo o valor produzido é
mais-valia. Algo que difere da exploração original da fábrica tradicional é que
as plataformas extraem o valor 24/7, o que traz maior produtividade sem as
dificuldades que os capitalistas encontraram com a diminuição da carga horária,
etc…
2)Cloud Platforms- São plataformas digitais que fornecem hardware,
software e serviços computacionais por meio da internet. Outros tipos de
plataformas dependem das clouds para funcionar, pois estas armazenam os seus
dados, etc… Assim o controlo destas plataformas significa o controlo dos meios
de produção digitais, pois são estas que permitem as outras funcionarem. Estas
plataformas não produzem diretamente mais-valia, no entanto são essenciais para
que as restantes produzam e extraiam esse valor. Também, podem adquirir valor
da mais-valia de maneira indireta, através de aluguel das suas infraestruturas,
capturando parte do valor da mais-valia que as restantes plataformas adquirem
3)Industrial Platforms- São plataformas utilizadas para modificar
processos de produção tradicionais através de digitalização e análise de dados.
Normalmente utilizadas por empresas industriais, recolhem, analisam e utilizam
dados provenientes de fontes de produção destas empresas. Isto tem como
objetivo, através dos dados retirados, aumentar a produtividade e a eficiência
e reduzir custos. Tal como nas “advertising platforms”, os dados tornam-se um
ativo central na criação de valor. Através dos resultados apresentados, as
empresas otimizam os seus recursos e aumentam a produtividade dos seus
trabalhadores, retirando maior valor da sua produção, no mesmo espaço de tempo.
Assim, como referido anteriormente, a mais-valia relativa aumenta.
4)Product Platforms- São plataformas que se baseiam na venda de
produtos físicos, mas que incluem uma infraestrutura digital por trás, que liga
diferentes produtos e serviços. Assim estes produtos físicos não são apenas
produtos individuais, estão presentes num “ecossistema” digital de produtos
conectados. Por exemplo, a Apple vende o Iphone como produto individual, no
entanto o sistema incluído no produto está conectado com outros produtos
digitais da empresa, como a apple store, apple music, etc… Esta interligação
tem como objetivo reter o utilizador dentro do ecossistema digital, extraindo
valor continuamente, através de atualizações, serviços pagos, dados pessoais e
fidelizações. A dependência crescente do utilizador para com o ecossistema leva
a que invista cada vez mais neste mesmo sistema, criando mais valor para a
plataforma, ou seja criando mais-valia, participando no sistema produtivo,
mesmo que de forma involuntária.
5)Lean Platforms- São plataformas que possuem poucos ativos próprios,
baseiam os seus negócios na intermediação entre a oferta e a procura de certos
bens e serviços. Dois dos exemplos mais conhecidos são a Uber (não possui
carros, mas fornece o contacto entre o motorista e o passageiro) e o Airbnb
(não possui imóveis, mas fornece o contacto entre anfitriões e hóspedes). A
mais-valia adquirida por estas plataformas, mais uma vez, não é direta na
fonte, é capturada em percentagem da mais-valia criada na relação entre a
procura e a oferta, não arcando com custos trabalhistas, pois os agentes da
oferta são considerados trabalhadores autónomos. Também, através dos dados do
utilizador, cria-se maior valor para extrair, através de otimização das
plataformas seguindo os interesses dos utilizadores.
Em conclusão, Srnicek identifica novas formas de exploração e
acumulação de capital, num mundo globalizado e digitalizado. A mais-valia surge
da combinação entre trabalho precarizado, vigilância e utilização de dados, e o
controle das plataformas representa o novo poder do capitalista sobre os
processos de produção, mesmo quando esta produção é “invisível”.
Na visão de Marx,
a exploração e a apropriação da mais-valia pelo capitalista trazem diversas
consequências negativas para o trabalhador e para a sociedade. Debrucemo-nos
sobre algumas:
1) Exploração do trabalhador – Ora, como algum, ou grande parte do
valor do trabalho está a ser apropriado pelo capitalista, estamos perante uma
situação de exploração do trabalhador, uma vez que o transforma numa ferramenta
de trabalho, desumanizando-o, havendo uma prioridade dada ao lucro, em
detrimento do bem-estar dos trabalhadores.
2) Alienação - Marx considera que o trabalhador é
alienado de diversas maneiras: a) do seu trabalho, como produto, porquanto este
é apropriado pelo capitalista, como do próprio processo de trabalho que é
escolhido, subordinando-se ao patrono; b) de si próprio, pois o trabalho
deveria expressar-se sob uma forma de libertação e de criatividade humana,
todavia, torna-se um fardo adstrito à necessidade de vender a sua força de
trabalho em troca de um salário para sobreviver; c) dos outros trabalhadores,
designadamente, pela competição gerada por uma busca incessante pela acumulação
de capital.
3) Desigualdade -
Com a busca dos capitalistas pela máxima capitalização possível, sem melhorar
as condições do trabalhador, este tornar-se-á cada vez mais favorecido
economicamente, em relação aos trabalhadores que continuarão a depender do seu
salário para sobreviver. Isto também despoleta problemas estruturais na
sociedade, porque estes privilégios garantem controle sobre instituições
sociais e políticas.
4) Crises
económicas - Com a procura da maximização dos lucros, haverá também,
naturalmente, uma maximização da produção. Pese embora, como os capitalistas
procuram maximizar estes dois conceitos, sem aumentar salários, os
trabalhadores poderão não poder fazer face para a aquisição de produtos. Assim,
crises podem começar a existir por superprodução, desembocando em encerramento
de empresas, fábricas, etc, que, por sua vez, resultam em despedimentos,
precarizando a situação dos trabalhadores, não raras vezes, empurrados para
situações de pobreza. É, no entanto, de notar que Marx considera que estas crises são cíclicas no capitalismo,
e não acidentais, logo não podem ser evitadas.
Concluindo, para Karl Marx, a mais-valia representa um
elemento basilar para o sistema capitalista e a exploração da força de
trabalho, e as suas análises às contradições do capitalismo, através deste
conceito, continuam a verificar-se até aos dias de hoje, podendo assim ser um ponto
de partida para novas alternativas.
Bibliografia:
"Das
Kapital" (1867) – Karl Marx
"Labor and
Monopoly Capital: The Degradation of Work in the Twentieth Century"(1974)
- Harry Braveman
"Platform
Capitalism" (2016) - Nick Srnicek
Artigo de:
Rodrigo Rodrigues.
Secretario do Conselho fiscal
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